quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

ZABÉ CANGACEIRA E LAMPIÃO


As peripécias e valentias de Zabé Cangaceira haviam se alastrado, ganhado o mundo nordestino, ecoado mata adentro até chegar aos ouvidos de Virgulino Ferreira da Silva, o temido Lampião. Informado sobre tudo que acontecia ao redor, de certo modo a saga da destemida já havia virado zunzum-zunzum dentre o bando, despertando-lhe diferenciado interesse.
O senhor das revoltas sertanejas logo quis conhecer além do que se comentava por ali, procurando saber de tudo, timtim por timtim. Um coiteiro se fez de mensageiro da notícia e contou a história da mulher de cabo a rabo. E confirmou que ela havia organizado um bando de mulheres raivosas, decididas e de armas em punho, que expulsaram das redondezas interioranas tudo que havia de homem casado safado e mulher quengueira.
Lampião achou interessante a história e, chamando-o perto de uma moita mais afastada, ordenou ao coiteiro que fosse até a dita valentona e lhe entregasse um bilhetinho que iria escrever. Então rabiscou três linhas dizendo que tinha muito interesse de conhecê-la pessoalmente, ali mesmo no esconderijo onde se encontrava. E pediu ao mensageiro que passasse todas as informações sobre como chegar ao lugar.
No dia seguinte, logo no clarear do dia, Zabé cortou vereda, subiu e desceu a serra, chegando enfim ao ninho de cobra acompanhada do coiteiro. Estranho é que já trazia um saco de mantimento, roupas apropriadas para a vida na caatinga e algumas armas que já guardava desde outras batalhas. Pelo jeito já tencionava ficar, como de fato ficou fazendo parte do bando.
Assim que a mulher foi apresentada ao Capitão e este a vasculhou de cima a baixo, e antes mesmo de qualquer conversa mais demorada, foi repassada ordem para que Zabé fosse apresentada aos demais cangaceiros e confirmado que dali em diante ela seria mais uma seguindo o mesmo destino. Mas quem não ficou gostando nem um pouquinho dessa história foi Maria Bonita, sua agrestina esposa.
Com o olho mais que apurado, retina de enxergar a cor dos olhos de vagalume no breu da noite, Maria Bonita percebeu um leve sorriso no rosto de Lampião assim que avistou a novata. E disse consigo mesma que aquilo não ia cheirar nada bem, pois se aquela zinha começasse a arrastar as asinhas pro seu homem não demoraria pra sair dali com uma quente e outra fervendo. Se não fizesse pior.
Mesmo se roendo por dentro, raivosa e enciumada até dizer chega, Maria Bonita preferiu silenciar e fazer de conta que não havia acontecido nada demais. Ora, era apenas mais uma mulher fazendo parte do bando, como aliás outras já o acompanhava há tempos. Só que aquelas outras já eram compromissadas com cangaceiro mesmo, muitas vezes vivendo as agruras daquela vida por amor ao seu homem. Mas agora a situação era outra, pois pelo que sabia a tal Zabé era solteira, espadaúda, bonitona.
Mas ficou mesmo em tempo de explodir quando viu Lampião abrir um embornal e escolher um vidro cheinho de perfume e seguir em direção a Zabé para lhe presentear. Levantou afoita, se formigando toda, e assim que o Capitão colocou a água de colônia na mão da outra, avançou feito raposa arisca e arrebatou o objeto, abrindo o frasco em seguida e derramando todo o líquido aos pés da nova e assustada cangaceira.
A atitude de Maria Bonita deixou Zabé num envergonhamento de baixar a cabeça para pensar melhor antes que tivesse uma reação desnecessária para aquele momento. Mas num segundo já lhe veio à mente o que fazer. E descaradamente disse: “Num tem nada não meu Capitão. Água de cheiro aos poucos perde mesmo o perfume. Diferente do perfume de sua presença, que cheira a sertão e a tudo de bom”.
As consequencias dessas palavras foram as piores possíveis para Zabé. Mesmo a força de Lampião, sua tentativa desesperada de que não acontecesse o pior, nada disso impediu que Maria Bonita apanhasse ao redor um pedaço de pau espinhento e partisse pra cima da desditosa. Deu uma paulada que a mulher se curvou toda, deu outra perto das ancas que os gemidos brotaram.
Não deixou a mulher completamente moída porque esta não esperou por tempo ainda pior. Deu um último olhar para o seu inerte Capitão e se danou a correr mundo afora, pulando por cima de pedras, arrancando garrancho, se lanhando toda nos espinhos de mandacarus e xiquexiques.
Lampião tinha os seus motivos para não interferir com mais força. Se quisesse Maria nem tinha derramado o perfume e começado aquele surramento todo. Até que gostaria que Zabé ficasse, mas até gostou que a cangaceira partisse. Seria mais difícil manter a paz entre aquelas mulheres do que lutar contra inimigos.



Rangel Alves da Costa*

Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Um comentário:

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